Eu passei longos anos de minha vida debruçada sobre apostilas, fui chamada várias vezes de cú de ferro. Aguentei apelidos, ironias, colegas que se apoiavam sobre mim para tomar proveito de minha disposição estudantil. Alimentei o sonho de ser aprovada em alguma faculdade de renome, talvez até para massagear meu ego. Passei, mas ainda não era a que eu sonhava. Eu sonhava mesmo era com o dia da minha aprovação na UnB. Lá depositei todas as minhas fantasias de uma estudante pré-vestibulanda. Coloquei em altar de ouro a "nossa senhora dos protetores dos estudantes que almejam passar numa federal". Não é fácil de uma hora para outra passar o trator e derrubar os pilares de algo que foi construído à muito sonho e rebocado com uma boa dose de expectativa. Mas, como já disse, para acabar comigo o destino fez com que uma lei me tirasse completamente dos eixos. E ele conseguiu! Desde que isso aconteceu, eu juro que tentei retomar o rumo, mas não consegui. É como se tivesse voltado à estaca zero, e fosse ainda aquela estudante do 1º ano do 2º grau, que acaba de se dar conta que tem que escolher um curso superior. E eu que pensei que jamais retornaria àquela agonia...
Como fui infantil em achar que é só decidir e pronto. A vida dá tantas voltas e numa delas ela acaba te puxando pelas pernas. É exatamente assim que eu me sinto. Desnorteada, indo mais ou menos para uma direção que se assemelha à minha escolha anterior. Só que é diferente. Nunca será a mesma coisa. Nunca será a mesma certeza. É por esse e outros motivos que não se deve às vezes, agarrar uma ideia com tanta força, ela pode escapulir e te deixar sem saber o que fazer. Eu não devia estar dizendo tudo isso, afinal, quem quer saber sobre meu futuro profissional? Que se dane, agora. Tá tudo explodindo dentro de mim, e não consigo colocar pra fora de outra maneira. Preciso gritar ao mundo. É estranho. Até poucos meses atrás eu ria de quem ainda estava na incerteza do que fazer. Ficava indignada quando perguntava a alguém o que iria fazer da vida e esse alguém me respondia que ainda não havia decidido. Para mim era tão claro meus objetivos. A estrada reluzia em meu horizonte, chamando-me para trilhá-la. Era inadmissível ver uma pessoa como cego no tiroteio. Sou uma cega no tiroteio agora.
Quando estava terminando o 3º ano, gritava e criticava em alto e bom som aqueles que ficariam na cidade e estudariam numa faculdade particular. Era o fim da picada. Aliás, não aplico a culpa somente sobre minha pessoa. A verdade é que isso sempre foi assinar atestado de incompetência. Uma ideia preconceituosa, mas que acaba virando lenda. E, para me dar mais uma vez uma boa lição, o destino me joga contra a parede e me oferece justamente essa opção. Depois de vários acontecimentos, desde uma mudança frustrada a um estado emocional abalado, esse caminho apareceu brilhando mais que neon. Uma parte de mim concordava, mas a outra, relutante, ainda não aceitava deixar para trás tudo que um dia eu planejei. Não é minha culpa, como disse, passar o trator é realmente muito complicado.
No fim de semana comemorei meus 19 anos. Quando fui chamar os amigos para a festa, percebi que só havia uma pessoa de minha turma de amigos da escola para chamar. Ainda assim, fui informada que ela também estava de mudança. Agora eu me pergunto se há outra explicação para isso, senão o destino tentando me fazer rever meus conceitos. Apanhar um pouco para aprender. Só que eu me sinto tão fraca e impotente. Sei que há muitas pessoas que me amam, as quais estão tentando de todas as formas possíveis, me ajudar. Só que não é mais uma questão de ajuda, é uma questão de auto-ajuda. Só eu sei o frio na espinha que me dá quando penso em determinadas situações. E o medo? Sinto um medo tão grande capaz de me fazer correr da sala de aula no primeiro dia. E acreditem, não falo brincando. Voltei a ser a aluna colegial que quase vomitava todos os primeiros dias de aula. Que entrava na classe encarando os colegas como se fossem demônios prontos para amaldiçoar minha vida ou me detonar simplesmente com um olhar. Voltei a ser a tímida aluna que no começo de sua jornada, não tinha coragem de abrir a boca para pedir ao professor licença para ir ao banheiro.
Responda-me: isso tudo é normal? Estou abalada, e simplesmente não sei mais o que pensar e fazer. Só queria dormir e acordar com tudo isso acabado. Ou ainda acreditar que tudo é uma grande piada da vida, a qual irei dar boas risadas lá na frente. Não quero sair daqui, mas também não sei o que fazer se ficar.
Então, meu bom Deus, ilumine meus pensamentos. Sei que já não sou mais criança para esperar que alguém faça algo por mim, mas fui uma criança tão carente de infantilidade, que agora preciso ser uma adulta um pouco infantil. Sentar, chorar e pedir algum anjo bom que desça e interceda por mim, resolvendo todas as minhas dúvidas e ainda deixando um cart
ão com nome, telefone e endereço.














